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Joker 22

Lieu
Professor, roteirista e escritor, que usa esse blog na net como ferramenta catártica, e de rascunhos.

Catárse Virtual

Alguns textos que procuram serem olhos que os acompanhem e façam-nos viver.

LENDA

Abaixo meu copo de whisky, música nos ouvidos, chuva caindo: Sweet Dreams are made of this. Entre pedras de gelo, álcool, embaçamento, deformação, o anjo! Meu olhar se choca nela pelo panorama, olhar sutil, vestido branco ao fundo do bar.  Iluminada pela luz febril e incidente, mancha diáfana. Some of them wants to abuse you. Flutua suave entre mesas lotadas, esquiva-se como se dançasse sozinha, andando entre todas as pessoas paradas. Uma lâmina brilha de seus olhos aos meus e já não brilha mais, o tempo eterno e fragmento, em que nos vimos, olhos nos olhos. Some of them wants to be abused by you. Todo o ambiente me diz verdades que prefiro não ouvir, o aviso ao fundo da mente, consciente de tudo, que continua ignorando a verdade. Algo me sobressai na loira dos olhos tristes, mãos frias, convidativas; que me encara, que me vê, me prende absolutamente. Nossos olhos refletem-se, repentinamente próximos. Entramos num táxi, Afonso Penna, ABC, mártires, palácios, um parque de árvores enormes, homens massacrados por estrelas, um obelisco, bares, cinemas, prostíbulos. A levo pra casa, continua sorrindo graciosa, misteriosa, nebulosa. Sedutora, minha mão, em vão, esquenta seus dedos finos, suaves e gelados. Silenciosamente contornamos a Rodoviária. Ela indica o caminho: direita, esquerda, viaduto, uma rua comprida com um nome estranho, mau e bom agouro. O táxi pára, eu pago, ainda embriagado, sem ver as notas que dou. Descemos na praça. Sentamos na murada, branca como a névoa, de frente pro arco fechado pelo portão de metal, Morituri Mortuis. Algo brilha em seus olhos. No banco a abraço. Conta a sua vida, perdeu o noivo, deprimiu, chorou até a morte ainda intocada, moça-virgem. Meu braço, trêmulo, rodeia seu vestido branco, a puxa em minha direção. Sem consistência, ela seesquiva, mantém a boca distante da minha, puxo mais e roubo. Beijo de olhos fechados no silêncio da madrugada. Calafrio, arrepio na espinha eriça a nuca. Volto a ver e ela não está aqui, está atrás de mim e flutua, em linha reta, sem se mover, em direção ao arco, sem olhar para trás, nem me dizer adeus. Desliza sobre a bruma que nos envolvia na madrugada, misturado a seu vestido, a pele translúcida, Morituri Mortuis. Passa através das grades, entre cruzes de vidro, se mistura aos anjos e mausoléus, some na bruma.

 

 

CENAS

Tarde

Tromba na velha. Ladrão! Camelôs. Beba Coca cola, fitas, flipper, chinelo arrebenta, luzes, reloginhos do Paraguai, barulhos prêmios, chão quente queimando as solas dos pés, telesena, máquinas de bichinhos de pelúcia. Antártica agora, só de Pirapora, salgados quarenta centavos, vento na cara, compro ouro, parado menino! Banca cai, vendem-se lotes, relógios se espalham pelo chão, derruba o criolo, filho da puta! Alguém segura, blusa rasga, Hard rock café, empurra gente, escapa, corre, contigo, Ana Maria, capricho, All star, foge, Uma esmola pelo amor de Deus. Chuta, Daytona, Leandro & Leonardo, corre, ninguém na rua, voa, freios guincham, vermelho, tomba.


Noite

Brilhos refletem brilhando em seus piercings, azul, verde, vermelho, roxo. Dança pela pista apinhada, encontrões, música pesada, bêbada, intoxicada. Seus olhos verdes escolhem a vítima, alvo fácil, presa garantida. Ela se aproxima, sem que seja notada, fica casualmente ao seu lado. Olha profundamente o fundo dos olhos dele, agelicalmente maliciosa. Ligação! Olhos não mais se desgrudam, seu rosto fica azulado, mãos se procuram verdes, cabelos brilham roxos, corpos se colam, vermelhos, bocas se grudam, roxas, línguas desenroscam como serpentes se acasalando. Embolados, recuam tropeçando até a escuridão do quarto negro profundo. Ela encosta a cabeça no canto da parede, sente o frio dos ombros contra o cal. A tinta invisível nas sombras. Mãos apalpam quadris, seguram curvas, percorrem-se, penetram-se. É levantada contra a quina escura, seus olhos fechados vêem luzes explendorosas, brilhantes. Multicores, azuis, verdes, vermelhas, roxas. Contraem-se ritmadamente, arfam, escorrem. Sozinha, azul, volta, esverdeada, sem folêgo, vermelha, tranqüila, dançando no meio dos brilhos que se refletem nos piercings que vêm em seu rosto.

Madrugada


Trêmulo, o ônibus trepida, parado no sinal. Entre as cadeiras de plástico marrom, olha pela janela. Neons refletidos no vidro, bares fechados nas calçadas. Outro ônibus vem, pára do lado no sinal vermelho, vermelho como o anúncio de Coca Cola brilhante no alto do prédio da esquina. Vermelho como o rosto a chorar pela outra janela, no outro ônibus. Moça em pé, firme no ferro preso ao teto. Chora em pé, sem olhar, embaçada por lágrimas que escorrem por seu rosto como cascata. Brilham verdes como esmeralda, refletindo o sinal. Os ônibus seguem caminhos opostos. Distanciam para sempre.

Consciência Cosmica

1

se calasse a mente

se não mais pensasse

a tortura teria fim.

 

2

perdido em mim mesmo

procuro meu quem

o que fiz de mim não sei

mas procuro noite adentro

entender todos meus porquês

(Porquês de todas as escolhas)

 

3

Longe da vida,

Perto do passado que não é mais meu,

bombardeio-me comigo mesmo

infernizo-me na consciência

Querendo impossivelmente

compreender-me e compreender à tudo.

 

4

O Que me fez o que sou?

meu código genético?

toda a história de meu(s) país(es)?

O tempo e o espaço em que vivo?

(se é que vivo)

Minha alma?

Meu Karma?

Todas as incontáveis vidas pelas quais passei?

A historia desnecessária de minha vida?

meus átomos?

 

5

escrevo:

para que a manhã chegue logo

para que a cabeça pare de minhocar

para cansar-me de maneira tão definitiva que durma num sono exausto e

                                        sem sonhos

para gastar papel caneta

por que para tal sou impulsionado

pois assim permanecerei após a morte?

para que essa crise de consciência  cósmica dure infinitamente transposta no papel

para cessar esse fluxo que me toma

pois assim estava escrito.

O Bravo Ulisses

Sentindo o cheiro da Vertigem,

Um buraco negro materializado no vácuo.

Permaneço, amarrado ao mastro,

Enlouquecendo com o canto,

Não sonoro,

Inaudível

Elétrico,

Magnético,

Que não se dá em som

Que não se dá em melodia

Ou ritmo,

Só o silêncio se propaga no vácuo.

Mulher-Simulacro

 

A mulher-simulacro,

aqui representada

por traços,

signos,

símbolos,

figuras de linguagem,

é uma mulher-platônica,

somatória,

ideal,

portanto

inexistente.

 

Paralelismo sintático.

Andando na calçada da Damrak, consigo ver claramente entre a multidão o Mac Donald’s, mais um entre todos, igual a todos os outros do mundo afora. As luzes brancas, claras, o ar agradavelmente clean, as promoções anunciadas na parede, fotos de sanduíches apetitosos. Meu estômago da uma roncada, já esta na hora de comer alguma bobagem, afinal já tem três horas que não como nada e um Big Maczinho de vez em quando não dói. Empurro a porta de vidro olhando os preços, o Big Mac poderia ser usado de moeda mundial, e falo pra lourinha antiséptica do caixa o que desejo: Quero um Big Mac, batatas fritas, e uma Coca-cola. Ela registra o meu pedido com aquele sorriso pré-fabricado entre o forçado e cansado. Guarda a nota que estendi e me dá o troco. A loirinha me dá as costas, pega meu sanduíche, põe na bandeja, depois as batatas e finalmente o copo de coca. Pego a bandeja, vou até a mesa, me sento, abro o saquinho de catchup em cima do papel que cobre a bandeja pra ir molhando, uma a uma, as batatas que como entre as mordidas pequenas ao redor do sanduíche, tomando cuidado para todo o recheio não escorrer. Entre cada três mordidas bebo um gole de coca-cola, que desce redondo, relaxando garganta afora. Quando acabo de comer amasso o guardanapo que usei para limpar os cantos da boca, jogo tudo no lixinho, todos os dejetos: caixinhas, o copo vazio, o canudinho, o guadanapo amassado. Agradeço a loirinha pelo sanduíche, que tem o mesmo gosto de um nada pré-fabricado que em qualquer outro lugar do mundo. Ela responde com uma forma de gentileza espontânea como uma morte por assassinato, aquele sorriso forçado e cansado de antes, de sempre.

 

Passeando pela calçada da Oudezijds Achterburgwal, vejo perfeitamente, no meio de todas as pessoas que passam, que andam, que vivem, que traficam, o coffe shop The Doors: as luzes azuladas, o ar aconchegante, a névoa purpura, o balcão coberto de notas de todo o mundo, as fotos das pessoas famosas. Meu cérebro treme em alegria e acho que está na hora de pitar unzinho, afinal de contas tem três dias que não fumo nada. Abro a porta de madeira, olhando os preços sobre a máquina de chopp. O Fumo em Amsterdam é considerado do A, os bicho, o melhor que há e um tapinha não dói. Peço pra moreninha do balcão o que desejo: quero um pouco do Silver Haze, um Hashcake e um capucchino sem açúcar. Ela sorri para mim com o mesmo sorriso de todos os dias: amarelo e seco. Guarda o dinheiro que dei no caixa e me dá o troco. A morena vira de costas pra mim, vira a chave, abre a gaveta, tira o fumo e põe no balcão. Depois põe a fatia de bolo no pratinho com um guardanapo e por fim  traz a xícara de capucchino. Pego o fumo e ponho no bolso junto de algumas das sedinhas que deixam pra freguessia. Pego o pratinho, o talher e a xícara, me sento numa das mesas. Abro o saquinho de fumo, debulho cuidadosamente em cima de uma revista pra enrolar, um a um, os três baseados. Faço cada um de uma maneira diferente: cone, cilindro e holandês. Guardo dois no bolso, acendo o terceiro, o maior e mais grosso de todos. Fumo uma bela tragada a cada mordida de bolo que como. Sempre fumando devagar pra não jogar fumaça fora, para não esperdiçar nada. Trago a cada vez uma bela bola, que desce queimando pulmão adentro. Quando acabo ponho a bagana no cinzeiro e limpo o canto da boca com o guardanapo que veio com o bolo. Levo a xícara, o pratinho e o talher pro balcão. Agradeço a morena pelo bom fuminho que me fez tão bem à cabeça. Ela responde com o mesmo sorriso amarelo e seco que me dirigiu quando me aproximei pela primeira vez do balcão, minutos atrás.

 

Numa das calçadas do distrito da luz vermelha, vejo nitidamente entre os corpos que vagueiam sem rumo na noite, a vitrine da zona: sua luz vermelha, o ar malicioso da ruivinha que pisca e me olha com lascívia, suas tetas apetitosas e turbinadas, suas coxas amplas e fortes, seu bikini minúsculo e brilhante. Meu pau força tecido da cueca e acho que aquele é o momento exato pra comer uma xavaskynha, afinal já fazem mais de três semanas que não fodo. Ela abre a porta de vidro, através da qual tinhamos nos olhado e flertado por intermináveis segundos. Logo que entro ela me diz o preço da chupada e da foda. Puta em Amsterdam é profissão reconhecida, lá elas tem um know-how de séculos, carteira assinada, seguro de saúde e aposentadoria. Afinal de contas uma bocetinha de quando em quando é bom pra cacete. Peço pra ruiva o que desejo: primeiro uma chupetinha esperta e depois uma boa trepada cavalgante enquanto pego nos deliciosos melões. Ela pensa no que pedi com o mesmo sorriso falso e libidinoso que usa com todos os clientes enquanto puxa a cortininha transparente e branca da porta. Guarda a nota que lhe dei na gaveta da mesinha de cabeceira, me dá o troco. A ruiva vira de costas para mim, puxa a cortina, tira a calcinha e o sutien sem tirar as longas botas pretas de vinil. Põe o bikini no gancho da parede, passa o lubrificante na rachinha como quem passa batom. Vamos até o sofá, ela senta e pede que tire a roupa e me sente do seu lado. Acaricio os peitos dela enquanto ela chupa até meu pau ficar bem duro. Põe a camisinha nele e deita no sofá me chamando pra vir por cima dela. Mexemos juntos, ritmados com cuidado pra não sair pra fora, fazendo nosso mexe-mexe gostoso, num ritmo crescente. A cada três bombadas dou um beijinho de leve em seu pescoço, só pra ficar mais excitante. O caralho entra buceta acima, fazendo a ruiva alterar a respiração. Depois que gozo, tiro a camisinha, dou um no. Ela se limpa com um guardanapo, joga a camisinha e o papel na lixeira. Agradeço a ruiva por me aquecer naquela noite fria, ela me responde com o eterno sorriso falso e lascivo que ela usa com todos os clientes.

 

28 de maio de 2000

Helena

Helena, de olhos glaucos

Devastadora, causadora de guerras

Tumultos, mortes

 

Helena, de olhos glaucos

Sagrados, felinos,

Brilhantes, femininos

 

Helena, de tranças bem feitas,

Insinua entre a névoa das roupas

Formas perfeitas.

 

Helena, de tranças bem feitas,

Estampada de motivos

Insinuante, insatisfeita

 

Helena, de pés velozes,

Fantástica, presente

Em murmúrios e vozes

 

Helena, de pés velozes,

Próxima, distante,

Firme, errante.

 

Helena, de voz macia,

Que sussurra na memória,

Muda a história.

 

Helena, de voz macia,

Que desce suave

Que surge noite e dia.



Retirado de coreografia de desencontros

Sopa de Tartaruga

            Antônia Clearwater abriu os olhos enevoados por lágrimas acordando do desmaio, buscava na memória o que acontecera. Surpreendeu-se com Mr. M, furtivo, em sua casa tarde da noite, então ele tinha mesmo tirado uma copia da chave antes de lhe devolver a que era dele. Ao primeiro tapa, ela caíra para trás e acordara ali, agora, depois de sabe-se lá quanto tempo. Tentou se mover mas estava firmemente amarrada na cadeira da sala, aquela que fora lembrança de seu avô, uma das antiguidades que guardava com tanto carinho, com tento orgulho, com o mais verdaeiro amor. Mr. M estava na sua frente, com o olhar vítreo que era sua marca registrada e as vezes a deixara intranqüila. Fitava a vítima com as  sobrancelhas arqueadas, sorrindo da mesma maneira que uma aranha sorri para uma mosca capturada. Tentou se soltar, mas as mãos amarradas nas costas não permitiam qualquer movimento em direção à liberdade, os pés presos aos da cadeira também eram inemovíveis.

Ele a olhou com ódio controlado e ao perceber que ela acordava, começou a falar com sua voz calma e firme. "Vagabunda! Agora sua hora chegou! Eu te falei para não brincar comigo, não me fazer de otário! Agora você vai ver com quem é que buliu." Saiu do campo de visão dela que agora, só tinha a casa vazia a sua frente. Antonia Clearwater ouvia os barulhos do andardele, forte, pela casa, de um lado para outro. Barulho de panelas batendo e coisas sendo atiradas ao chão a assustava, o que será que ele estava planejando?.

De sua cadeira, Antônia Clearwater ouviu o computador ser ligado, os barulhos do despertar da máquina, do abri das janelas. A voz dele, de longe, "Format,  C, Dois Pontos, Enter! Agora o essa máquina obsoleta que você tem coragem de chamar de computador vai contar até cem! Diga adeus pra toda a sua memória! Podemos ate chamar isso de uma pequena lobotomia virtual" Um tempo se passou, o silêncio gritava nublando os pensamentos, nada de palavras, ilustrado apenas por ruídos diversos,  do nada ele reaparece. "Tá na hora de ir para a cozinha! Sei que você não gosta de comida, nem de nada relativo a isso, sua anoréxica esquálida! Você tem que ver que não pode ser assim sacana como foi comigo, pois pode ter gente ainda mais sacana que você, nesse mundo." Mr. M arrastou a cadeira, tombada nas pernas de trás, até a cozinha. A deixou de frente para o fogão vazio. Pelo canto dos olhos Antônia Clearwater podia ver o movimento dele, andando pela casa de um lado para outro, fazendo alguma coisa inimaginável, movido por sua mente doentia. Depois de outra ausência ele surge com um balde e o coloca na pia da cozinha, abre a torneira.  Enquanto a água caía cascateante no balde  de plástico branco, Mr. M  mais uma vez saiu de seu campo de visão.

Alguns minutos depois, Mr. M voltou sorrindo, com um imenso panelão de fazer feijoada nas mãos, que colocou sobre o fogão. "Agora você vai sentir na pele o que é infernizar a vida alheia,  sua puta mentirosa. Fingiu que me queria enquanto ficava naquelas lamúrias de adolescente no seu diário; desde o dia que eu me mudei, começou a escrever reclamando da minha presença, se não me queria por que foi que me trouxe para dentro de sua casa? Por falar nisso,  você não acha que tá muito grandinha pra fazer diário? Quase quarenta fazendo diário pra se queixar da vida? Acha que por acaso é a Anne Frank? Sua vida é medíocre, sua época não tem nenhum valor histórico ou cultural, seu discurso não tem criatividade ou novidade. Por que não faz algo de efetivo ao invés de se lamuriar e encher o meu saco? Não é por que você fez da sua vida um inferno, que todo mundo que está a sua volta tem que sofrer também... Mas agora você vai entender o que é sofrimento! Sofrimento de verdade e não aquele monte de palavras vazias, aquele monte de atopiedade distorcida e sem valor."

Antônia Clearwater  se lembrou da primeira vez que o vira, naquela festa de formatura de uma amiga que ela invejava, por, apesar de tudo,ser mais bem resolvida que ela. Mr. M entrara com uma camisa peculiar, estampada em marrom, e a puxara pela cintura de um jeito especial, com uma posse que a deixara instantaneamente molhada e apaixonada, na hora em que se juntaram mais para caber na foto. Seus olhos verdes brilharam para ela seduzindo. Naquela mesma noite se beijaram, ela o levou a sua casa e transaram no quarto de televisão. Se tornaram inseparáveis, em poucos dias ela o tinha trazido para sua casa, a grande casa que lhe fora dada pelo juiz após a separação com o ex marido, há mais de cinco anos.

Antônia Clearwater voltou das lembranças da agradável paixão atirada contra a dura realidade daquele presente inóspito. Mr. M retornou cantarolando um sambinha cínico "Vou festejar, o seu sofrer, o seu penar! Você pagou com traição, a quem sempre te deu a mão!" Voltou trazendo, uma a uma, as três tartarugas que eram dela desde a infância, os seus adorados quelônios: Jeronimus, Telônius e Feijãozinho. Jogou, aos chutes, os bichos pela cozinha, rodando-os sobre as carapaças invertidas no chão. Antônia Clearwater chorou lágrimas de pavor, imaginando o que ele faria. de crueldade com os bichos de sangue frio, mas não tão frio quanto o dele. Mr. M, de braços cruzados, ria da agonia dela.

Quando Mr. M foi morar com ela, as coisas progrediram de forma rápida e prazerosa: Re-arrumaram toda a casa; ele cozinhava seus pratos exóticos, levando-a a comer um pouco mais, embora se alimentar fosse tão difícil com sua doença. ela tinha esse problema, o medo de engordar como as mulheres de sua família a levara ao outro extremo, enquanto todas comiam muito, aquelas comidas típicas das Minas Gerais, banha de porco como a base de qualquer fritura ou refogamento, ela fechava a boca quase completamente, passava dias a pão é água, uma xícara de café amargo. Quando sentia que ia desmaiar corria para a casa de uma vizinha e filava um pão com bife. Com ele comia com mais gosto, ao vê-lo cozinhando com carinho, e tentava controlar a ânsia que sempre vinha no ato da alimentação. Depois de pouco tempo seus ossos da bacia já não apareciam furando a pele como nas fotos dos judeus da segunda guerra. Cansados e empazinados dormiam juntos e a maneira com que ele a possuía quase com animalidade a acordando de madrugada a extasiavam, deixando-a exausta. Mr. M tentava, com paciência, que ela rompesse com seus medos, que superasse sua dificuldade em lidar com as máquinas, e passasse a dominar o computador ao invés de ser dominada pelo terror que tinha dele. Tentava com carinho que Antônia Clearwater rompesse a baixa auto-estima de seu medo de falhar no ato da escrita.

Mr. M acendeu quarto das seis bocas do grande fogão, equilibrando o panelão sobre elas, despejou o balde de água, "Foi divertido para você encher meu saco esse tempo todo, não foi? Foi bom ficar minando minha paciência, ficar testando meus limites dia a dia, não foi? A cada vez que eu tentava te ajudar com algo, você reclamava que tinha que respeitar seu tempo.... você acha que adianta semear no outono, sua histériquinha anoréxica! Se não manda currículo no início do ano não adianta nada! Vai continuar desempregada! Seu currículo, que não assim dos melhores, vai encontrar apenas vagas já preenchidas, o que você ta fazendo é apenas desperdiçar celulóide, tanta árvore morrendo pra isso. Você é que tem que se adaptar ao tempo do mundo e não ao contrário! Mas foda-se! Se você quer viver na merda, dependente, inútil, que viva; mas não vou ser conivente a essa sua merda... Não sou instituição de caridade, muito menos banco. E, na sua idade, com tanto cabelo branco aparecendo,  você já deveria ter aprendido uma coisa ou outra com a vida."

Antônia Clearwater começava a ficar com muito medo do que ele seria capaz de fazer, sabia que o tinha provocado cruelmente, mas a dor de que sentiu quando ele terminou tudo, falando que não havia mais jeito, que estava saindo da relação e que assim que pudesse sairia da casa e da vida dela, foi terrível. É verdade que ele tava sendo honesto que ela, não tinha envolvido ninguém na história, tava cumprindo apenas com o que havia prometido quando ela resolveu fazer o cursinho preparatório. As contas da casa ficaram todas por conta do minguado salário dele,  assim como a comida deles. mas era irresistível para ela, e as vezes ele se incomodava por tão pouco, tão facilmente, que achava graça nas reações dele, além do que ela precisava saber como ele reagia às coisas.

O primeiro a cair na panela foi Feijãozinho, depois Jeronimus e por último o velho Telonius. Ele deu uma escarrada, puxada do fundo de seu pulmão de fumante inveterado, daquele catarro acinzentado, que lhe escorria nas bochechas ao canto da boca. "Escarra nessa boca que te beija! É o máximo de poesia que consigo te dar agora sua idiota. Espero que com o próximo trouxa que você arrumar pra te sustentar na bebida e na fumaça, seja menos imbecil que eu e te ponha de uma vez todo o limite que tanto pede, que seu pai não conseguiu por. Dá até vergonha saber que seus filhos preferindo ir morar com o pai, do que te suportar bêbada, chata e promiscua, trazendo um pau diferente para dentro de casa a cada dia da semana, mas achou que eu jamais saberia? Achou que eu não desconfiei a cada vez que você insistia em falar mal dos vizinhos como se você fosse uma santa e eles o grande mal que te rodeia? Sou otário não, minha nega, saquei teu jeitinho falso desde o início, posso ser burro, mas não ingênuo e aprendi a desconfiar quando uma mulher toca insistentemente em um assunto, alguma manipulação está acontecendo"

Ele a deixou ali, amarrada e a panela no fogão e saiu rindo e cantando sambas cínicos e cruéis sobre o sofrer e o penar. Desesperada, precisar os quelonios de ferverem no panelão té a morte, ela ouviu o portão de fora da casa sendo fechado com um estrondo, começou a se balançar na cadeira, com muito esforço sacolejou até o outro lado da cozinha, alcançou uma faca que estava sobre a mesa, foi difícil, mas cortou as amarraras, pensava apenas em salvar os pobres quelônios. Ao se libertar, descobriu que fora enganada o fogo fora desligado, sem que percebesse e as tartarugas nadavam alegremente .... a dor de ter sido enganada foi tão grande quanto a tensão por se libertar das amarras. Fora enganada, ele conseguira com todo o teatro deixa-la preocupada, com medo de ele respondesse a altura seu historico de agressividade, agora estava derrotada. Ele a superara, se vingara sem sujar as mãos, fizera hora com a cara dela otempo todo. O demônio que ela queria por pra fora nele, era um simulacro de demônio, um simulacro do demônio que a possuia e que ela não podia evitar de ser.

Monstrum Horrendus

Latina linguam chatam est. Alunus desesperatus in sucidum pensat. Magistrum parlat parlat parlat in aulam et non resultatum acontecit. Alunum burrus entrat et burrus sait. Alunae et alunum parlebant di tudum, menus latina aulae. Estudantibus in classae dormire et parae curare insoniam exercicibus di latinae usare. Vulpeculam et galinae estranhum est parat alunus grandit quae non entendere porquorum textum cum bichinhum falantae parum alunus universitarium in curricullum entrat. Alunun in butanum tomat in simester finis, curriculum suiare, desperatum ficare, magistrum di mortis ameacare. Tediosum trabalhum in classeae est. Latina linguae incompreesibilis est. In aureum tempum, humanitat quasis extinguire porquat, cum latinae linguae dificillibus di puellas cantat, et rebocare multus difucultibus est. Alunum atualibus non intendere porquat latinum histudatus est, afinalibus di contae, mortum mexere necrofilam coisae est.


escrito em meio a uma dessesperante aula.

...E Lúcifer criou o mundo,

...E Lúcifer criou o mundo, sem bondade nem maldade,  Sem beleza, feiúra. Um mundo que simplesmente era, sem maiores complicações. Levou cinco dias para criar o mundo, parou dois para o descanso. Nestes últimos dias Jeová, seu arcanjo primeiro e mais querido, mais amado, se revoltou: Contestou, quis perguntar o motivo disso, a razão daquilo, numa ladainha sem fim, até que Lúcifer se cansou e eles brigaram. Exila Lúcifer, que tenta defender seu trono das forças de Jeová e seus contestadores que questionavam a cor do céu, o fato das jabuticabas nascerem nas árvores e as melancias no chão, Jeová expulsa Lúcifer do lugar onde viviam, exila Lúcifer para a matéria, exila Lúcifer para o esquecimento, exila Lúcifer para seu ódio eterno. exila Lúcifer para a danação, exila Lúcifer para a maldade, exila Lúcifer.

            Sem a presença de seu pai, criador, Laios, muda de nome passa a se chamar e a ser chamado de Deus.

            No mundo criado por Lúcifer havia a criação preferida por Deus: o homem, um bicho estranho, fisicamente mais fraco a maioria das criaturas, morria de frio ou de calor facilmente, não podia nadar ou voar através dos espaços maravilhosos que nosso Senhor Lúcifer criara. O homem era na verdade um rascunho de algo. Era algo inacabado que ainda não sabia para onde ia. Deus dentro de sua gloria e onipotência fica com pena da pobre criatura, Tão deprimida das sensações, e a transforma, a deixa a sua imagem e semelhança, dando-lhe o era faltoso para ser distinta das demais criaturas existentes no jardim farto de paraísos criados para o deleite de nosso Bom Senhor Lúcifer. Deu ao homem o diferencial: a alma, a ganância, a prepotência, a inveja. O homem agora estava completo, era assim como Deus, capaz de superar qualquer obstáculo. Agora invejava as aves, e voou, invejava os rápidos jaguares e correu, invejava os peixes e nadou e mergulhou. É o único animal que sonha em ter uma sobrevivência mais fácil e para isso escraviza o seu próprio irmão, o seu semelhante, destruiu o mundo de nosso bom senhor e criador Lúcifer, o incompreendido. Mata por orgulho de matar, mata por esporte, mata por brincadeira.

A Menina que Roubava Livros, de Markus Zusak

A Menina que Roubava Livros.

 

Ao comprar “A menina que roubava Livros”por obrigação, não sabia do que tratava. Como professor de literatura, me pediram uma aula particular sobre o livro do escritor australiano Markus Zusak. Logo me impressionei com a narrativa: fluida, cheia de emoções fortes, daquelas que acertam no estômago como o Popó; para meu espanto sem ser piegas. Um belo livro que em sua história nos mostra a “importância das palavras” como diz o próprio autor. A história, a primeira vista, é para crianças, mas apenas à primeira vista, pois o livro tem uma pungente historia de vida, de crescimento, de aprendizado; uma história que consegue mostrar alguma beleza em um dos períodos horrorosos da história recente: a Segunda Grande Guerra. O livro conta a história de Liesel Merminguer, “a menina que roubava livros”: Sua história começa quando o irmãozinho de Liesel, Werner, morre; saindo do velório, em meio ao frio e à neve, Liesel encontra seu primeiro livro “O manual do Coveiro” caído no chão e o guarda dentro do casaco como lembrança. Ainda nesse mesmo dia sua mãe a deixa para ser cuidada por uma família adotiva na rua Himmel (Céu em alemão), numa pequena cidade nos arredores de Munique.

 

Morando em Himmel, com Hans Hubermann, pintor de paredes, e Rosa, sua esposa, uma dona de casa rabugenta que fazia trabalhos esporádicos como lavadeira, Liesel aprende a ler com o pai adotivo, escondidos no porão da casa. Por causa do “Manual do Coveiro” aprende a ler, e a partir de um livro surgem outros e inicia uma leitura de sua vida, da época em que está inserida, do mundo que a cerca. É o mundo adulto, na sua face violenta e cruel, lido com a inocência que uma criança de 10 anos pode apresentar. Uma curiosidade é que a narrativa é contada por alguém que teve alguns encontros esporádicos com nossa protagonista, e impressionada com a história dessa menina, encontrada num diário perdido, e resolve contá-la. Essa voz é a voz da Morte, muito atarefada no período, mas não atarefada demais para perder a sensibilidade e deixar de notar a pequena Liesel e as coisas boas que ela carregava em si. “A menina que roubava livros” traz inúmeros personagens fascinantes: Max Vandenberg, o escondido; Rudy Steiner, o corredor; Pfifikus, o velho de boca-suja. O livro saiu pela editora Intrínseca no ano de 2007. Acho que já fisguei o anzol da sua curiosidade sobre esse livro na sua cabeça, se falar mais vou contar que o assassino é o mordomo e aí, acabou a graça. Sinto que posso deixar por sua conta o que agora falta: ler.

Matheus Roedel Evangelista, Outubro de 2007

 

poemeto


abrimos vinhos procurando nele, como diziam os romanos, a verdade
não funcionou e só nos restou a saudade de uma amor antigo
de um sentimento perdido nessa vida em que o sol nos arde
o rosto, a pele, todo o corpo. nos resta o peso do morto
que carregamos em nós, nosso próprio corpo defunto.

igualita quae seras tamen

Desde que a humanidade se entende como tal a mulher vem sendo subjugada pela força bruta masculina. Os habitantes das cavernas caçavam e a suas mulheres cuidavam da caverna, e das crianças. Quando os caçadores chegavam com sua força bruta as pegavam de qualquer jeito e “crau” ali mesmo, em volta da fogueira. Com o tempo as coisas mudaram, mas não nesse aspecto. A mulher permanece sendo a cuidadora do lar, a escrava da cama, sendo tratada como um objeto do prazer masculino, submetida aos caprichos,sem que sua vontade fosse levada em conta. A mulher era sexualmente passiva, submetida, e deveria gozar nessa posição, sem nunca se tornar sujeito na relação sexual. Nos furiosos anos 60 a mulher se rebela contra esse papel e procura igualdade, queima sutiãs em praça pública queimando-os como símbolo da opressão milenar. A mulher pode guiar, usar calça feito homem, mostrar peitinho na praia e votar. A mulher mostra que pode ter poder, que pode se igualar ao homem. Pode trabalhar, chefiar empresas e até países. Lady Die foi uma flor de lótus em meio a sujeira humana, Margareth Thatcher e Indira Ghandi, são exemplos a serem lembrados. Uma fez guerra feito homem, a outra ordenou genocídios raciais. 

 

Agora vemos as mulheres imitando os homens no que eles tem de pior, a capacidade de oprimir o outro, de subjugar. Homem é violento e oprime, a mulher aprendeu isso, com o passar dos anos agora, tal qual os judeus se vingam do holocausto nos palestinos, elas tratam o homem como homem objeto, quando o ideal fosse não existência de objetos, nem masculinos nem femininos (uma terceira forma talvez como o it inglês) ao fazer do homem objeto a mulher demonstra que não aprendeu nada, não foi capaz de superar a idiotice masculina, conseguindo no máximo se igualar a ela. Esse tipo de mulher mostra que tudo que conseguiu se tornar foi um arremedo patético de homem, e confirmam as absurdas teorias castratórias como gênese da neurose feminina, onde a mulher não segura a barra de da ausência do falo, que dela foi arrancado.

 

Da mesma forma que no íntimo de cada útero existe uma pessoa, como no âmago de cada bolsa escrotal.

Matheus Roedel 29 -01 –ano do Nossenhô de 2008

Diálogo: monólogos intercalados

Março de 2005

 

Ela disca, ele atende.

Ela – Oi. Sou eu, lembra?

Ele -  O que você quer?

Ela – Calma. Não vou ocupar seu tempo.

Ele – É bom.

Ela – Tou ligando pra te dizer que me importo com você...

Ele – Tá.

Ela – ...Que não te desejo mal...

Ele - Aham

Ela – Quero que você seja feliz, só te liguei pra te dizer isso.

Ele – Uhum.

Ela – Tchau

Ele – Adeus.

Desligam

Ele – E agora? O que falo? Calo? Ela liga depois de tanto tempo praquê? Qual o objetivo sórdido? Recomeçar a atormentar? Prejudicar? Empestear meu ar? Novamente me apunhalar até me matar? Essa mulher ama como um gato. Tem um prazer em brincar, como se fossemos ratinho, barata, besouro, uma simples presa. Brincam e depois de matar, não devoram o corpo. Caçam pelo simples prazer da brincadeira. Depois, deixam pra lá, abandonado, apodrecendo. Tudo perde a graça depois que a vítima deixa de agonizar. O predador então vai procurar outra presa. Outro ratinho estúpido pra morrer entre suas patas...

Ela – Porque ele não falou nada? Não consigo tirá-lo da cabeça, parar de pensar nele mesmo depois de tanto tempo. Não posso suportar a idéia de que ele me odeie tanto assim. Foi amor demais que tive por ele e amor demais sufoca. Queria só que ele fosse pra sempre, desde sempre, atemporal mesmo. Que ficasse comigo, que me amasse pelo que sou, com esse meu jeito, minha família, meu passado. Que quisesse essa aqui, a que sou, com meus defeitos e qualidades. Que quisesse meu presente, meu passado, meu futuro, meus antecedentes e minha continuidade. Me quisesse por minha essência.

Ele –Essa aí retornou das trevas profundas, de onde nunca deveria ter saído, pra voltar a infernizar! O que ela quer mais? Não me entreguei a ela totalmente? Ela teve tudo: tudo o que havia em mim, tudo de bom que tinha, e agora, olhe só como são engraçadas as coisas, agora já não pode ter mais nada... as portas do coração se fecharam, a paixão se foi, a sanidade voltou. A semente do amor que plantamos queimou com a frieza da loucura, e tudo que poderia ter sido, talvez em outra vida ou até numa realidade paralela, nunca mais foi, nem nunca será...

Ela – Porque ele não falou nada? Será que ele está com alguém? Era música ou vozes ao fundo? Mas numa hora dessas, ainda de manhã... Só se alguém dormiu lá, se ainda está lá, com ele... Ele nunca me amou. E eu, aqui, fazendo papel de besta, ligando pra ele, a essa hora, depois de tanto tempo. Fui só outra paixonite na vida dele, mais alguém que passou, sem deixar marcas, mais uma musa efêmera pra uma historinha estúpida e melodramática dele. (para a platéia) Nunca se apaixone por um escritor! Ele te deixa, finge que está sofrendo, finge que é dor a dor que deveras sente, então escreve. Escreve uma história linda onde ele é um coitado, vitima das circunstancias, e você a monstra imortalizada naquelas linhas estúpidas, que fez tanto mal aquela alma boa e sensível..., você é a torturadora implacável, algoz incansável e todos que lerem o que ele escreveu vão te olhar daquele jeito ao cruzar por você na rua...

Ele – A conheci por acaso, dentro de um ônibus, viajando. Viajamos um no outro, tesão, libido, luxúria, lubricidade, química carnal. Ela tão linda, mulher forte, corajosa, companheira, defensora, amorosa, vaidosa, investigativa.  Dei o calor de meus braços; dei casa, comida e roupa lavada, dei sexo de madrugada, dei acolhida, apresentei minha cidade e meu mundo, dividi meus maiores segredos, minhas reflexões mais profundas, meu corpo, meu espaço, minha vida, minha liberdade... A conheci aos poucos, nas madrugadas abafadas, nas profundezas das piscinas, na lua cheia. Conheci suas dores, sofrimentos físicos e mentais, fantasmas que rondavam, arrastando correntes, e o maior fantasma foi que você nunca entendeu que você queria já era seu, inteiro. Aquele tempo que passou como uma moda, como um filme no cinema, como uma gíria de novela. 

Ela – Porque ele não falou nada? Não me xingou, não esboçou nenhuma reação. Não foi cínico, completo em palavras ferinas, afiadas, transpassantes, como costumava ser, como era quando dialogávamos nus pela casa, discutindo apenas para apimentar a reconciliação sexual. Achei que, mais uma vez, ele ia me destruir com palavras, mostrar o quanto ele é inteligente e eu ignorante, inculta, pequena, mesquinha. Me arrasar com seus raciocínios lentos e serpenteantes, onde frases e períodos vão dando voltas, enroscando suavemente para que, no ponto final, ele, com algum efeito fudido de retórica, esmague, quebre os ossos, impiedosos, calmo como uma serpente...

Ele – Não te reconheci mais quando a outra que habita seu corpo tomou conta de ti, falando com aquela outra voz, me olhando com aqueles outros olhos. São duas em um só corpo! É isso! Duas almas antagônicas aprisionadas no mesmo corpo, no mesmo lindo corpo. Uma que eu amei e queria pra mim: linda, delicada, suave, fogosa. Entretanto a outra estava no mesmo lugar, violenta, perigosa, letal, ocupando o mesmo espaço. Nos espreitando enquanto dormíamos, cansados de amar. Nos olhava agourando, invocando pesadelos, desejando malefícios, querendo destruição. A segunda mulher que conheci em você quer o seu fim, e não se importa se, para que você cessasse, o meu fim e meu sofrimento viessem de tabela, o meu ou de qualquer um que estivesse no caminho, por mais inocente que fosse. O objetivo dessa outra é causar toda a dor tristeza e morte que puder, ela se alimenta disso. Coitada, amaldiçoada assim. Acorrentada a esse espectro infame que só quer o mal, que só se satisfaz com o mal. 

Ela – Porque ele não falou nada? Não falou nada agora, ao telefone, mas vai falar, vai dizer a todos que me conhecem que estou infernizando a vida dele, que nunca fiz nada além de infernizar a vida dele. Vai procurar meus amigos, contar meus segredos, fazer de mim uma personagem da miopia dele (para a platéia) mas afinal sou só uma personagem, né gente! Uma atriz representando um texto escrito por um autor amargurado. E aquele cara ali, (aponta o outro ator) é apenas outro ator, os dois num palco e vocês ai, sem entender que bagunça é essa, são o publico, a nossa quarta parede. Mimese, simulacro, catarse, essas merdas antiquadas, das quais não se consegue sair...

Ele – Porra fulana! (nome da atriz) Volta no texto! Temos mais o que fazer do que ouvir você divagar! Todo dia é a mesma merda: ela começa a viajar, foge do texto. O tempo deles não é lixo, pagaram caro pelo ingresso, vão reclamar na produção, a audiência da peça vai cair, com isso a nossa grana vai pras cucuias! Cê sabe tão bem quanto eu como é difícil sobreviver do trabalho de ator em (cidade) hoje em dia...

Ela – Tá bom, (ator) tá bom... eu volto no texto. (para a platéia) Desculpa gente, onde é que eu tava mesmo? Era naquele trem de eu ser personagem, sempre me confundo nessa parte, desde a primeira vez que peguei esse texto. Então vamos lá. (respira fundo)  Vai procurar meus amigos, contar meus segredos, fazer de mim uma personagem da miopia dele. Distorcer os fatos, inventar coisas sórdidas, inimagináveis, sobre meu passado. Tirar conclusões infundadas e passar essa mentirosa verdade a todos como sendo a verdade universal que rege todo o universo imaginado. Eu não devia mesmo ter ligado, mas ele é tão importante para mim, apesar de não valer nada...

Ele – De repente, eu era o vilão da história, o monstro infiel, o grande sedutor. Era eu quem escondia segredos, ocultava o passado, simulava fatos, dava em cima de todas as mulheres que entravam num raio de 5 metros... era sempre por minha culpa que os atritos surgiam. Tudo de que fui acusado, na verdade, estava nela. Eu era só o espelho, o cristal onde se refletiam todas as podridões, as mais sórdidas perversidades. E os inocentes levaram a culpa de coisas que nem tinham sonhado em fazer, por menos inocentes que fossem, só pelo peso do ciúme infernal. Todos os defeitos eram reflexos, apenas reflexos num espelho. E eu era a encarnação de todos os piores defeitos dela. Só se acusa o outro das próprias falhas, das mais complexas podridões. É sempre assim: se o defeito que temos existe no outro, então ele nos incomoda. Atirando-se os defeitos piores no outro, assim, tiramos esses nódulos cancerosos de nossa vida, de nossa personalidade.

Ela – Porque ele não falou nada? Entendo que tenha tanta raiva de mim, depois de tanto, depois de tudo. Ele precisava ser tão monosilábico assim? Ah, tenho ciúme até das palavras dele, ainda que agora, nem elas ele divide mais comigo, ele que falava tanto, tão bem, tão brilhante. Tinha ciúme demais, demais da conta. Queria ele todo para mim, que ninguém olhasse, que ninguém conversasse. Nenhum toque, nenhuma insinuação safada, nenhuma piranha sedenta rondando. Te quis tão meu que te perdi e sei agora que foi pra sempre. Te quis mais meu que de seus amigos, mais meu que de seus colegas de trabalho, mais meu que de suas obrigações profissionais, mais meu que de sua família, mais meu que tudo. Tão meu que não podia ser tão meu assim, me escapou por entre os dedos, fugindo de mim pra sempre.

Ele – E o amor pode ser tão lindo... cada pequeno momento de felicidade tão reluzente. Mas cada pequena beleza que te dei foi transformada numa dor enorme, cada segredo que contei foi punhal cravado às minhas costas. Tudo se voltava contra mim. Eu era culpado de te amar, culpado por tentar fazer bem a você, de te dar o melhor de mim. Declarações de amor não tinham mais sentido algum. Eram vazias a teus ouvidos que se preocupavam apenas em conseguir armas para serem usadas contra mim, sem piedade. Piedade é o que te falta e o que você precisa. Piedade.

Ela – Porque ele não falou nada? Não acredita em mim, nunca acreditou em mim, porque, no fundo, não acredita nem em si mesmo, aquele maldito fingidor. Fui dele como mulher nenhuma ousou ser. Quis ajudá-lo, quis que ele despertasse todas as suas potencialidades, se tornasse o melhor que ele poderia ser, aperfeiçoado, maravilhoso. Quis lapidá-lo para que aquele diamante bruto dentro dele pudesse brilhar com todo fulgor.

Ele – E ela diz que me amou. Chama isso de amor. Nunca me amou, não a mim. Ela amou, se é que amou alguém, um personagem de mim que ela inventou. Um outro eu inexistente na realidade, existente apenas na cabeça doente dela. Um príncipe que nunca deixou de ser sapo. Me amou como eu amo um frango. Amo frango frito, a passarinho, com muito alho. Tenho que matá-lo, depená-lo, desentranhá-lo, picá-lo, fritá-lo. Se o frango gosta desse processo é problema dele, amo ele assim, é só assim que o quero.

Ela – Porque ele não falou nada? Ficou com medo de mim, como sempre, mais uma vez aquele covarde filho da puta. Ele me usou de todas as maneiras, por todos os modos, tomou meu dinheiro, me bateu, me arrastou, jogou minhas coisas pra fora, me colocou pra fora da vida dele como se eu fosse uma cadela sarnenta, como se eu tivesse lepra, quando nos falávamos devia estar olhando pro ar com aqueles olhos vazios, sem sentimentos; só com nojo, muito nojo de mim, do mundo, dele mesmo...

Ele –E o passado escondido que nos assombrava? Acho que nunca pude estar com ela realmente, pois o passado dela se esconde sob seu corpo. Qual será o abismo que se esconde até hoje nos teus olhos? Qual a fera que saltará da sombra que você traz na alma? Tenho medo de descobrir, até de imaginar o que  poderá ser, que monstro há. Qual podridão te come, qual câncer te rói, que maldição infinda é essa que você carrega. Não quero viver assim fodido: fujo de ti. Agora e sempre... nunca vou te decifrar, esfinge sangrenta, feiticeira, possuída....

Dor

No banco do morto da viatura prata modernosa de Irina, eu via na distância a paisagem passando, paisagem européia plena e plana. Sentia me dolorindo aquela falta inimaginável de montanhas, aquela ausência de relevo que a Bélgica consegue proporcionar tão duramente num pobre coração mineiro. Sentia saudades da terra em que canta o sabiá, da proteção que as montanhas dão, do pão-de-queijo, torresmo, cachaça. Eram duas da tarde, tínhamos deixado Bruxelas a menos de meia hora, o sol mal aparecia entre as eternas nuvens belgas, aquele céu tão cinza que merecia perdão. Ia finalmente conhecer Paris, a cidade-luz, o Père Lacheise, a torre e o arco. Ia de carona com uma contraparente: Irina, que era fina, bem-educada, bem-vestida, cunhada da mulher do tio de minha boadrasta. Nichita, sua filha de 9 anos, dormia no banco de trás.

Irina tinha uns 45 anos, um ar dolorido, disfarçado na sua maneira elegante de vestir, como se tivesse uma pedra pesando dentro da alma. Era uma pessoa "especial" como minha boadrasta tinha eufemizado enquanto me levava de Boisfort a Uccle. Tentávamos nos fazer compreender, tentávamos conversar com toda a dificuldade de um mineiro pra uma romena, se bem que ela era professora de inglês, língua na qual eu tinha o mau-hábito de ouvir música barulhenta; e com os dois arranhando o francês, com um merci bien daqui, um na pas de quoi de lá. E enquanto a gente tentava se fazer entender no tédio da estrada, eu compreendia na sua história que o mundo é mesmo um mundão véio e sem porteira; o mundo é um espelho invertido; todas as histórias são a mesma, muda-se apenas tudo, mas nada muda, nem nunca vai mudar.

Eu contava para Irina da miséria tupiniquim, da Praça da Estação, dos pequenos viciados em crack, que aparentam 13 tendo 17 anos. Falava pra ela o quanto o regime militar tinha, particularmente, dado mais uma guinada rumo à miséria, dentro da fatalidade predestinada da história brasileira. Se der mole aos hômi, amizade, o bicho pega. Eu dizia que tinha nascido na Europa, pois meus pais tinham sido exilados por serem comunistas nos duros anos 60. Relatava dos que morreram e sentiram dor nas mãos dos hômi. da tortura dos freis, dos estudantes, Lamarcas, a volta do irmão do Henfil.  Os Exilados como Chico, Gil e Caetano que tanto compuseram em cima da saudade; Gabeira e Sirkis, e Nandinho Cardoso, o neo-liberal do momento.

Irina me contou que tinha deixado Bucareste, sua cidade na Romênia, numa manhã de outono, enquanto a fina chuva cobria tudo. Partira de uma vez por todas, junto de sua mãe, Constansa Pacificadora, e de sua filha, logo que as fronteiras entre leste e oeste se abriram, quando os muros caíram. Morava agora na Alemanha numa cidade feia e poluída por minas de carvão. Acorrentada a Constansa, idosa e doente, morava onde não gostava,  sem possibilidades de mudança. Elas não suportaram viver em Bucareste oprimidas pelo regime ditatorial, ainda mais depois que Valentin, o pai de Dana, morrera no pau, no frio do inverno, durante uma sessão de tortura nas mãos do governo mão de ferro. Era um cara de direita inteligente, esclarecido, combativo ao regime totalitário imposto na região pelos comunistas. Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada. Constansa esperou a confirmação daquela morte por muito tempo, apesar de já ter visto o corpo triste e frio de Valentim em seus sonhos. Está tudo nas entrelinhas de Tolkien, o poder corrompe a alma daquele que o busca assim como o Um; um anel para achá-los a para todos governar, um anel para uní-los e nas trevas os atar. O poder corrompe a alma humana maneira mais maligna ainda que a miséria, pois na fome de poder não há inocência.

Esposa, filha e neta. Três gerações abandonaram aquela terra, deixaram Bucareste de uma vez por todas, para nunca mais voltarem. Irina me falou da escada do prédio onde morava, que lhe rangira pela ultima vez, em despedida, de como o corrimão acariciara sua palma, uma despedida triste e cheia de dor, do pinheiro que balançara dando adeus. Irina falava desse sentimento da falta da pátria, de saber que nunca mais verá todos os rostos conhecidos que se vê usualmente na vida de uma cidade, os amigos de escola, o povo do bairro. Lamentou esse  saber que nunca mais vai poder sentar no bar de todos os dias, ou ver o pôr-de-sol daquela praça de que gostava tanto, essa saudade que em romeno se chama dor. Imaginei a desoladora saudade de não de se ter uma terra pra voltar, essa dor que ela sente, que traz na alma e no semblante, essa dor que naquele momento se cristalizava numa lágrima escondida pelos óculos escuros de griffe. Ela virou ligeiramente o rosto olhando um vasto campo de flores amarelas. Agora fora da Bélgica, em território francês, havia um céu azul, uma ou outra nuvem, apesar do sol não ser grandes coisa.